A peça de teatro Largo da Peça foi publicada
inicialmente em 2021, tendo sido a vencedora do Concurso de Textos de
Dramaturgia, do Projeto “Leituras Assistidas” do Centro Cultural do Brasil em
Angola em 2021. A autora desse texto é a angolana Ana Andrade, graduada em
História e atriz atuante na cena teatral angolana, fundadora do grupo “Elinga
Teatro”, e que também trabalhou nos campos da tradução, adaptação de textos
teatrais para radiodifusão e produção cultural em geral.
A peça traz a história de um grupo de mulheres com laços familiares
que, no período da independência de Angola, em meados da década de 70, fase de
grandes mudanças políticas e sociais, aguardam a volta do filho de uma delas
que se encontrava no exterior. As vidas dessas mulheres se entrelaçam e seus
dramas pessoais reverberam umas nas outras, enquanto do lado de fora do quintal,
do outro lado do muro, as mudanças vão se impondo.
A peça é, até certo ponto, uma peça escrita numa chave
realista, com os pequenos acontecimentos da vida de cada uma daquelas mulheres representando
situações a que estavam submetidas muitas mulheres daquela época. Mas há no
texto um elemento que se destaca, um elemento “mágico”, um fato que poderia ser
comum, mas que toma um caráter metafórico em sua repetição: o muro que rodeia a
casa desmorona, não uma, mas quatro vezes (cinco se considerarmos o desmoronar
do muro na cena final como dois eventos, antes e depois da canção de Teresa).
Para refletir sobre o muro do quintal desenhado por Ana
Andrade, é preciso pensarmos o que a imagem de um muro pode evocar. O muro como
metáfora é um elemento curioso por ter uma leitura paradoxal. Construir um muro
para se proteger é também se encarcerar dentro dele. O muro que cerca uma
comunidade permite que a comunidade fique segura, mas também impede que essa
mesma comunidade tenha contato com o que está além dela, limitando,
imobilizando e, no extremo, interditando a experiência além do muro. Assim, o
muro separa, e assim o fazendo, esconde o que está além do muro para os dois
lados que são separados por ele.
Na Literatura, o muro toma diversas configurações. Em
Eralldo (2019), encontramos alguns exemplos: em Sombras de Reis Barbudos,
do brasileiro Jose J. Veiga, os muros de Taitara “surgem da noite para o dia na
cidade, à beira de portas e janelas criando um verdadeiro labirinto urbano, e,
mais ainda, uma prisão opressora aos habitantes da cidade”; na obra “A Casa
de Asterion, do argentino Jorge Luís Borges, “as paredes e os muros que
envolvem seu personagem tanto podem esconder os perigos de seu exterior, ou
quem sabe proteger o que está no exterior”; em “As Crônicas do Gelo e
do Fogo do norte-americano George R. R. Martin, “a gigantesca e
colossal muralha feita de gelo e magia é a última proteção dos vivos contra Os
Outros” e, em O Conto da Aia
da canadense Margaret Eleanor Atwood, “a Universidade
de Harvard é transformada em prisão, e seus muros então são preparados de forma
medonha e intimidadora com seus arames farpados e holofotes”. Esses são apenas
alguns exemplos de como o muro é uma metáfora potente que pode, inclusive,
tornar-se o elemento central da narrativa, muitas vezes ocupando o papel do
próprio antagonista.
Araújo (2021), ao
estudar 3 autores portugueses (Cesário Verde, Raul Brandão e Fernando Pessoa),
destaca também elementos que considero interessantes para pensar o nosso muro
do Largo da Peça:
a imagem do muro também se associa aos
mitos civilizacionais e pátrios do passado, já que o muro, principalmente em
sua forma histórica da “muralha”, pertencente à paisagem fundante da nação
portuguesa, participa de uma espécie de repertório iconográfico nacional: de um
lado, peça arquitetônica estruturante na organização das habitações e espaços
urbanos, pautada por ideais geométricos e construtivos, e de outro, ligada à
cristalização de estratégias de guerra e fortificações que marcaram a formação
da cidade, podendo remeter, por isso, a uma espécie de hostilidade recalcada e
ideia de conflito. A imagem do muro comporta essa duplicidade disjuntiva entre
a noção de construção dos espaços identitários, ligados à casa e aos quintais
da infância, por exemplo, bem como à organização do saber, como o anexo aos
edifícios e instituições, e, por outro lado, traz a marca histórica da
violência, da divisão, da imposição do obstáculo e do limite (ARAÚJO, 2021, p.
143).
Vejamos então
que muro é esse que a Ana Andrade desenha em sua rubrica inicial para definição
de um espaço físico em que se desenrolará a peça:
Há um muro com cacos para impedir gatunos e um portão que dá
para o exterior. Uma corda com roupa estendida, uma mesa num canto com
bancos e cadeiras desengonçadas, um fogareiro. Uma outra porta junto à mesa é a
entrada de casa. O muro que dá para o exterior é velho, com rachaduras e
pintura lascada (ANDRADE, 2021, p. 15, negrito nosso).
Esse muro é
evidentemente um muro de proteção dos bens materiais (impedir gatunos), e
assume um aspecto assustador e de dissuasão na presença dos cacos postos ali
para ferir quem se arriscar a tentar entrar no quintal. No entanto, há ali
também um portão que dá para o exterior, o que significa que, tendo uma chave,
é possível entrar e sair daquele espaço: dessa forma, é um muro de contenção,
uma separação entre exterior e interior, que dá alguma privacidade a quem mora
na casa, afinal, o muro esconde o que ou quem está dentro do quintal. Mas ele
também “esconde” o que ou quem está do lado de fora, assim também pode esconder
o que não se quer ou não se deve ver... A aparência desse muro compõe um
retrato de um ambiente mal cuidado, ultrapassado, decadente, à beira de um
colapso em que as cadeiras desengonçadas “combinam” muito bem com rachaduras e
a pintura lascada do muro.
A primeira
vez que se ouve o barulho do muro que desmorona (ANDRADE, 2021, p. 23), no
primeiro ato, o grupo está em um longo silêncio após uma conversa da Mãe com
Tai a respeito da tristeza de Tai por não ter estudado e, assim, conquistado
sua autonomia, sua “independência”: “se eu tivesse estudado, podia fazer mais
coisas, ser enfermeira, trabalhar no hospital. Ter a minha casa...” (ANDRADE,
2021, p. 22), sonhos esses que a Mãe descarta de forma irônica ao atribuir à “vontade
divina” e às limitações da própria Tai o fato de ela não ter tido essas
oportunidades. Um retrato bem acabado de como a sociedade patriarcal trata a
ânsia de liberdade das mulheres e de muitas das minorias, a partir de um olhar
meritocrata. E é também o olhar da metrópole em relação à colônia. Contrariando
essa perspectiva, Michiko, mais nova que Tai, proclama: “Vou correr esse mundo
todo, vou chegar a Luanda e continuo. Vou ver morros e rios e pontes que nunca
vocês viram. E pessoas que nunca vocês viram, que falam as línguas das canções
da rádio. Vou, vou, vou e nunca vou voltar” (ANDRADE, 2021, p. 22).
A rubrica
desse momento já deixa claro que não será a única vez que o muro irá cair: “No
longo silêncio que se segue, apenas se ouve o barulho do muro a desmoronar-se
pela primeira vez” (ANDRADE, 2021, p. 23). Esse primeiro desmoronar provoca uma
reação sobressaltada do Filho: “mas esta casa está a cair aos bocados! Mãe,
temos de refazer esse muro. Mas agora estou cá eu, vocês não precisam de se
preocupar. Foi para isso que voltei também, para estar ao vosso lado” (ANDRADE,
2021, p. 23). O fato de sabermos que essa não será a primeira vez que o muro
desmoronará pode nos indicar que o “conserto” a que se propõe o Filho não é
possível. Será que esse desmoronar do muro indica que não é possível abafar,
esconder mais esse desejo de autodeterminação e liberdade das mulheres, das
minorias, das colônias, colocando muros para que Michiko não vá além dele?
A segunda
vez que o muro desmorona, já na primeira cena do segundo ato, estamos diante
das lembranças dolorosas de Tai que caminha, ela e sua sombra projetada no
muro, pelo quintal. Tai relembra o momento em que se descobre grávida e que
Cabral, seu amante português, deixa claro que não quer aquela gravidez. Os
muros estão bem definidos, segundo Cabral:
Não
mistures as coisas, rapariga, eu e tu é dentro deste quintal, estás a ver? Não
estamos tão bem assim? Fora do quintal é outra coisa, rapariga. É a vida real,
eu tenho a minha vida com a minha gente e tu tens a tua. Não se misturam estas
vidas... não se misturam... anda, vem-te sentar aqui ao pé de mim. Pára lá de
chorar, vamos remediar isso, eu ajudo-te... prometo, anda, dá-me a tua mão...
(ANDRADE, 2021, p. 33).
Essas lembranças são dolorosas: “Tai grita, lamento
desgarrado, dor e raiva - Onde estás? onde quer que estejas, não ficarás sem
mim, não viverás sem mim!” Diante desse grito, estabelece-se o “silêncio, a luz
esmorece, caem pedaços de muro, ouve-se o desmoronar do muro pela 2ª vez”
(ANDRADE, 2021, p. 33). As relações entre Tai e Cabral podem aqui ser uma
grande metáfora do processo de colonização? O muro que cai seria então o
rompimento doloroso desse processo? Uma nostalgia do passado?
A terceira vez
em que o muro cai, acabamos de ouvir uma história de Teresa Bombo que se passa
no Brasil. A mera possibilidade de um contato com o “preto” gera grandes
consequências: “a Madrinha bateu-me com um chinelo e disse que a partir daí eu
não podia mais sair sozinha, porque havia um preto por lá e ela não queria
sarilhos. A madrinha disse: és uma ingrata, é melhor voltares para a tua terra”
(ANDRADE, 2021, p. 38). E finalizando o segundo ato: “Silêncio. Apenas o
barulho do muro a desmoronar-se pela 3ª vez. Escurece” (ANDRADE, 2021, p.
38). A “madrinha” no Brasil poderia representar o próprio Brasil, considerando
que o Brasil foi o primeiro país no mundo a reconhecer a independência de
Angola, uma semana antes da própria data de proclamação da república angolana?
E se a “madrinha” é o Brasil, será que há aqui um questionamento pela forma
como os angolanos são recebidos no Brasil, ou um questionamento sobre a forma
como as relações entre Brasil e Angola se dão atualmente?
Na quarta vez em que o muro desmorona, a
situação que antecede esse evento é caótica. As tropas do “exército
revolucionário” invadem o quintal através do portão. Em busca de um
contrarrevolucionário, desconfiam da presença do Filho. Ao final de uma
conversa tensa, os dois soldados levam o Filho, que tenta argumentar: “calma, olha que vocês estão enganados. Vamo-nos
acalmar. Estamos do mesmo lado, então não se vê? Mãe diga-lhes, Tai, fazes o
favor de dizer a estes jovens, quem sou, de onde venho e pra onde... (o
Tropa 2, agarra-o por um braço interrompendo-o e com pânico crescente)
vão-me levar aonde?? Mãeeee!!!” (ANDRADE, 2021, p. 44). Os soldados levam
também Michiko. A rubrica dá conta dos fatos que se precipitam,
amontoando-se:
Vozearia
fora do quintal, os tropas saem correndo, levando Michiko e o Filho. A confusão
fora intensifica-se, há disparos, tiroteio, gritos. Tai cai no quintal
desamparada. Está morta. A Mãe dobra-se sobre ela e chora. Entra Teresa Bombo e
enquanto escurece à volta, senta-se num banquinho, no centro do palco e canta
uma canção em umbundo, com os atores em palco imóveis nas suas últimas posições
e o muro desmoronando pela 4ª vez (ANDRADE, 2021, p. 44, negrito nosso).
Assim que
termina a canção de Teresa, ouve-se o muro desmoronando pela última vez,
escurece e a peça tem seu fim. Esse último desmoronar do muro poderia ser lido
como uma metáfora da mudança social que se opera nesse período histórico? Ou
representar o fato de que cada uma daquelas pessoas vê seu mundo “cair por
terra”? Ou, ainda mais profundamente, poderíamos pensar que as identidades
daquelas pessoas deixam de fazer sentido nesse novo mundo?
Nessa direção, Araújo em sua análise da obra Húmus (1917) de Raul Brandão, afirma que
Ao dramatizar a disjunção, a imagem alegórica
e recorrente do muro torna-se motivo central do livro, figura pensante da
escrita, capaz de encenar a cisão do sujeito, a vivência dissonante do espaço e
das relações sociais, a dúvida em relação à ética dúplice da civilização, em seu
jogo entre aparência e verdade, e a crise constitutiva das representações diante
de um novo estar no mundo” (ARAÚJO, 2021, p. 149).
Assim, não seria
possível fazer essas mesmas afirmações ao analisar Largo da Peça? Tai e
sua identidade cindida, as “vivências dissonantes das relações entre as
diversas mulheres, e entre elas e o Filho, o jogo de aparências na relação
entre Cabral e Tai, a necessidade de construir “um novo estar no mundo” e a
incapacidade de fazê-lo?
Por fim, o próprio uso da palavra “desmoronar” em referência
ao muro também não pode indicar um processo de desfazimento lento, insidioso,
que na ação do tempo acaba por perder sua integridade e se tornar uma “ruína”,
já que esse muro não é um muro que “desaba”, não é um muro que “cai”, é um muro
que “desmorona”? Essa imagem escolhida pela autora para conduzir a narrativa é definitivamente
uma imagem poderosa que merece um estudo mais aprofundado, como indicado pelas
diversas questões levantadas nesse texto.
Referências
ANDRADE,
Ana. Largo da peça. Luanda: Edições Handyman, 2021.
ARAÚJO,
Joana Souto Guimarães. A imagem apórica e
antidialética do muro em três autores modernos da literatura portuguesa:
Cesário Verde, Raul Brandão e Fernando Pessoa. Contexto, Vitória, n. 39,
p. 137-168, 2021.
ERALLDO, Douglas. 10 muros e muralhas
da literatura. Listas literárias. 4 fev. 2019. Disponível em:
https://www.listasliterarias.com/2019/02/10-muros-e-muralhas-da-literatura.html
Acesso em: 14 maio 2023.