domingo, 11 de maio de 2014

Gostei de NOÉ e não gostei de HOMEM-ARANHA 2

Assisti aos dois filmes no final de semana passado. Confesso que fui meio que de má-vontade VER “Noé”. Só fui ao “Noé” porque fui arrastada por um amigo que não queria ver o filme sozinho. Já ao “Homem-Aranha 2”, fui por curiosidade, já que não havia visto o primeiro do “reboot”, mas tinha gostado muito da primeira trilogia.
Surpreendentemente, gostei muito mais de “Noé”, do que do “Homem-Aranha 2”. É isso mesmo. Eu explico.
O que me atrai num filme? Histórias intrigantes, bem contadas num roteiro inteligente, utilizando-se de bons atores.


Assim, sendo bem sincera, esse “Homem-Aranha 2”, para mim, é um filme “teen”, turbinado por uma avalanche de efeitos especiais. No caso dos protagonistas Andrew Garfield (Homem-Aranha), Emma Stone (Gwen Stacy) e Dane DeHaan (Harry Osborn), as interpretações são bem regulares, sofríveis em alguns momentos. Sem querer ser saudosista, Tobey Maguire, Kirsten Dunst e James Franco apresentam interpretações bem mais convincentes nos mesmos papéis. Já quanto aos vilões, Jamie Foxx (Electro) segura o filme na maior parte do tempo e Paul Giamatti (Rhino) é totalmente desperdiçado, com uma interpretação apagada por conta do próprio roteiro, creio eu. O enredo, no que pese o fato de ser mais próximo dos quadrinhos (inclusive quanto ao destino da “mocinha”), o que pode satisfazer os fãs mais fervorosos, me pareceu mal desenvolvido pelo diretor Marc Webb (de “500 Dias com Ela”). Mesmo sendo um história basicamente de ação, o Homem-Aranha dos quadrinhos tem um lado muito interessante como personagem, suas contradições, seus conflitos internos, que poderiam ser mais bem explorados, mas que deram lugar a sequências de rasantes entre prédios e piadas fraquinhas como a do rosto sujo e a chaminé... Enfim, achei o filme dispensável.


E “Noé”? Primeiro, quero deixar claro que minha modesta análise não passa nem perto da questão de sua fidelidade ou não à Bíblia. É um filme, e como tal, pode desenvolver a história que quiser. “Noé” não é um filme bíblico. Sua “filiação” é muito mais próxima dos filmes-catástrofe (“Presságio”, “Twister”, “O Dia Depois de Amanhã”, por exemplo). É claro que se o diretor Darren Aronofsky (de “Cisne Negro” e “Réquiem Para Um Sonho”) tivesse chamado o filme de “Dilúvio” e trocado o nome de Noé para Joãozinho, talvez ele pudesse se poupar um pouco da ira que despertou em grupos religiosos pelo mundo ocidental afora. Mas talvez essa reação, já esperada, faça parte da propaganda. Vai saber...
Enfim, falando do filme “Noé”. Primeiro, Darren Aronofsky se utiliza de atores obviamente bem mais talentosos: Russell Crowe (Noé), Jennifer Connelly (Naameh), Emma Watson (Ila), Anthony Hopkins (Mathusalem), Nick Nolte (Samyaza) já são atores tarimbados. Logan Lerman (Ham) é conhecido pela interpretação bem convincente em “As Vantagens de Ser Invisível” (em que contracena com Emma Watson) e Douglas Booth (Shem) é o único dentre os protagonistas que está iniciando sua carreira. E todos estão muito bem nos papéis que representam.
Mas o que mais me interessou foi a forma como as contradições e conflitos do enredo criado por ele foram representados. A personagem interpretada por Ray Winstone, o chefe dos homens, faz algumas das perguntas mais interessantes do filme: Por que Deus renega sua criação, se o homem foi criado a sua semelhança? Por que esses homens que trazem o sinal de Caim têm seu destino traçado pelo pecado de seu ancestral? Por que matar a todos eles, mas salvar Noé e sua família? Noé não é também um homem? 
Já Noé traz outras questões complementares: Qual a sua verdadeira missão? Ele tem o direito de ser poupado? Deixar as pessoas morrerem é uma atitude digna? Por outro lado, não seria melhor para a criação, para o planeta, se simplesmente o homem deixasse de existir? O sacrifício dele e de sua família não deixaria o resto do planeta a salvo?
Nesse sentido, para mim, Noé deixa de ser apenas o “escolhido”, para ser um homem em profundidade. Ao mesmo tempo, aqueles que Deus considera indignos de continuar vivendo também ganham uma dimensão humana. Em tempo de polarização, em que quem comete um delito grave, hediondo, deixa de ser considerado um ser humano, sendo desumanizado nas cadeias, enquanto aqueles que se acham os “escolhidos” para fazer justiça acabam por agir de forma tão bárbara quanto aqueles a quem eles pretendem “justiçar”, essas questões me parecem bastante pertinentes.
Agora, podem jogar as pedras... :)

sábado, 1 de março de 2014

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO, 16 DIAS DE PRISÃO: DE SOLOMON NORTHUP A VINÍCIUS ROMÃO

Vinícius Romão antes da prisão
Bem, desde que começaram a surgir as notícias sobre a prisão do ator Vinícius Romão por um assalto a uma senhora na rua, próximo ao Hospital Pasteur, no Rio de Janeiro, fiquei chocada. A prisão dele é um verdadeiro circo dos horrores: ele foi preso a partir de um “reconhecimento” pela vítima, feito na rua. Sim, correspondia a seguinte descrição genérica: negro, alto, cabelo black-power. Ele não estava de posse de nenhum pertence dessa senhora. Foi preso e enviado a uma penitenciária, mantido numa cela com mais 15 detentos, sem direito a contato com a família, submetido às condições humilhantes, como o ritual de raspar os cabelos. Um rapaz formado em psicologia, ator, sem passagem pela polícia. E, pior, as instituições “competentes” levaram 16 dias para admitir seu erro e liberar o jovem, depois de uma intensa movimentação dos familiares e amigos, inclusive na mídia.
Vinícius Romão após a prisão
                   Já solto, essa semana Vinícius Romão foi ao programa “Encontro com Fátima Bernardes”. E lá eu vi Solomon Northup: um homem quebrado, sem brilho, marcado pela dor. Aquele que em 12 Anos de Escravidão, também é um negro livre, com estudos, violonista, sem passagem pela polícia, que é sequestrado, escravizado e submetido a condições humilhantes. Sua condição de homem instruído é uma maldição: é preciso “dobrá-lo”, “quebrar sua espinha”. Fazê-lo sentir-se, assumir-se como escravo. Assim como Vinícius precisa entender que é um “malfeitor”, um presidiário, um homem marcado pelo crime.

            Duas histórias reais. Solomon Northup era norte-americano e viveu no século 19. Vinícius Romão é brasileiro e vive no século 21. No entanto, ao ver o filme, vi Vinícius. Ao ver o programa na TV, vi Solomon. E ao sentir essas semelhanças no meu coração, fiquei triste. Profundamente triste.

Solomon Northup, interpretado por  Chiwetel Eliofor em 12 Anos de Escravidão
Histórias como as de Solomon não foram poucas. Como as de Vinícius Romão também não o são. Segundo relatório das Nações Unidas, 40% dos presos brasileiros é de presos provisórios e há um número assustador de detenções ilegais. Muitos desses detentos, inocentes, ficam com sequelas irreversíveis. Leia em Histórias que Assustam a ONU . 
Só desejo que o final dessas histórias sejam diferentes. Solomon Northup tentou levar seus sequestradores para um tribunal, mas não conseguiu, pois negros não podiam depor contra brancos. Espero que os responsáveis pela prisão arbitrária de Vinícius Romão respondam por seus atos junto à justiça.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A TOTAL INCOMPATIBILIDADE DE SER CRISTÃO E ACEITAR A DEGRADAÇÃO DE UMA PESSOA EM NOME DA JUSTIÇA

Tenho visto diversos textos pela internet afora, discutindo o ocorrido no dia 03/02/2014, no Rio de Janeiro, em que um jovem delinquente foi espancado, despido e preso a um poste por uma tranca de carro. Há discussões no âmbito legal e social, que acho extremamente pertinentes. Mas no meu caso, a pergunta que me faço repetidamente é: como ser cristão e aceitar esse fato como normal, ou mais grave, como justificável? (Deixo claro que não estou aqui a falar de instituições religiosas desse ou daquele tipo, nem excluo do debate outras crenças e outras opções como o ateísmo. Apenas não as conheço suficiente para tentar traçar um paralelo da visão cristã com as demais em minhas considerações.)

Volto, então, à pergunta: o que Cristo nos diz sobre tomar a justiça em nossas mãos e sobre a prática da violência em geral?

Jesus se depara com um apedrejamento de uma adúltera. Nesse caso, a lei está ao lado dos agressores (o que não é o caso dos agressores do jovem, posto que há todo uma legislação brasileira que criminaliza milícias e assemelhados). Cada um ali está cumprindo seu dever de cidadão, fazendo cumprir a lei (aqui se encontra algumas das justificativas de pessoas que aceitam o que ocorreu). A adúltera é uma criminosa perante a lei, sabia dos riscos que corria ao cometer seu delito, prejudicou pessoas, sujou a honra da família, desacatou as leis de sua comunidade (eis aqui mais alguns argumentos de defesa dos agressores).

Jesus, no entanto, vê ali pessoas, seres humanos. O mal que se instala ali, seja por parte de quem delinquiu, seja por parte de quem pretende justiçá-la, não é mais forte que o amor que ele prega: “Atire a primeira pedra, quem nunca pecou!” Essa é a voz da razão e do coração: quem nunca infringiu a lei? Cada um de nós tem pequenos ou grandes delitos registrados na alma, que mantemos em segredo. Lembremos: cada vez que acelero meu carro acima da velocidade permitida, infrinjo a lei. Cada vez que falsifico uma carteira de estudante; cada vez que crio, supervalorizo ou omito informações no meu currículo, infrinjo a lei. Não é suficiente? Pedro pergunta a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Jesus responde: Não até sete, mas até setenta vezes sete.” Perdoar é não deixar que o nosso coração seja tomado pelo mal, pela ira, pelo ódio, pela violência.

Então, vamos deixar os delinquentes soltos por aí? (Aqui se encaixa o argumento que diz que não se garante os “direitos civis para gente de bem”). Nem mesmo Jesus diria isso. Ele foi bem claro ao dizer “Dai a César o que é de César.” Mas a retirada de alguém que delinquiu da sociedade temporariamente deveria ser movida pela ideia de dar a essa pessoa a oportunidade de resgatar seu crime, regenerar-se. Não a de puni-lo exemplarmente, jogá-lo em cadeias que aceitamos serem horríveis, degradantes, porque assim ele pode sofrer mais.

Por fim, Jesus nos dá uma outra lição, por meio de Pedro: “Então Jesus lhes disse: ainda essa noite todos vocês me abandonarão. (...) Pedro respondeu: Ainda que todos te abandonem, eu nunca te abandonarei! Respondeu Jesus: Asseguro-lhe que ainda esta noite, antes que o galo cante, três vezes você me negará.”

Por que Pedro nega a Jesus, se sabemos que ele o amava profundamente? Por medo. Esse medo profundo que muitas vezes temos em nosso coração. Medo do outro, medo do que é diferente, medo de não ser aceitos, medo de não sermos compreendidos, medo de assumirmos a nossa parte no projeto divino. 

Fracos que somos, deixamos que nosso medo nos domine e esquecemos que, ao acreditar em um Deus onipotente, deveríamos confiar plenamente na justiça divina e fazermos nossa parte para que o mal deixe de existir em nosso corações. Cada momento que optamos pela violência ou a justificamos, somos como Pedro, negando que conhecemos Jesus, que conhecemos sua mensagem, traindo assim aquele que se propôs ao sacrifício para nos trazer para o caminho da luz.

(Na minha postagem do dia 22/12/2013, neste mesmo blog: "Anjo Vingativo ou Companheiro Compassivo?" comento uma interpretação da passagem bíblica sobre Jonas, que traz alguns pontos coincidentes com esse texto. Vale a pena conferir!)




domingo, 22 de dezembro de 2013

ANJO VINGADOR OU COMPANHEIRO COMPASSIVO?

Em tempo de "haters", "trolls" e "bullying" cada vez mais violentos, dentro e por vezes fora da internet, muitas vezes me peguei tentando entender o que faz uma pessoa agredir a outra de forma tão incisiva, principalmente quando a outra cometeu um erro, um ato impensado, uma indiscrição. 

Recentemente, li um livro que analisa a trajetória do Jonas, aquele da baleia bíblica, de um ponto de vista psicológico. Chama-se "Caminhos da Realização - dos medos do Eu ao mergulho no Ser" de autoria de Jean-Yves Leloup. Não é uma interpretação teológica, nem fundamentada em nenhuma religião: analisa a história de Jonas como um mito, como uma representação de nosso percurso pessoal, da nossa missão como ser individual. O texto é bastante interessante e amplo, tratando de vários temas. Destaco aqui a parte dessa análise que me ajudou a entender alguns desses comportamentos e que espero seja interessante para você também. 



A história numa versão bem resumida é a seguinte: Jonas vai parar na baleia porque ele se recusa a cumprir a missão que Deus determinou pra ele: ir a Nínive, que é a capital da Assíria, morada de inimigos dos judeus, e avisar que a cidade será destruída por conta dos seus pecados. Pois bem, depois de fugir de barco, se jogar no mar e ser engolido pela baleia ele concorda em cumprir a missão. Ele segue pra Nínive e dá o recado. E o inesperado ocorre. Todo o povo de Nínive se arrepende, se penitencia e, assim, é perdoado por Deus.
Aqui surge o que mais me interessou: Jonas se revolta com o perdão de Deus dado aos moradores de Nínive. Jonas quer que Nínive seja destruída. Ele serve ao Deus da Justiça. Jonas aceita a missão de apontar os erros dos outros, mas espera que a Justiça se cumpra, que Nínive seja destruída. Ele é o anjo vingador, que traz a "verdade", mas traz também a destruição.
Assim, quando Deus perdoa o povo de Nínive, ele pede a Deus pra morrer. Ele se recusa a viver nesse mundo em que erros são compreendidos e perdoados. E se recusa a entrar na cidade; faz uma cabana do lado de fora e se isola.

Diz Leloup: “Trata-se de observarmos bem a nós mesmos e de notar este prazer que temos quando vemos alguém sofrer pelas consequências nefastas dos seus atos. Chamamos a isso de justiça. A experiência que Jonas fará é algo além da justiça. É a revelação de um outro Deus, de uma outra dimensão do Absoluto, que ele não pode imaginar que exista. Porque ele não pode imaginar que se possa perdoar a criminosos, a destruidores. Jonas tem um grande desprezo, vendo o que Deus fez. Ele se encoleriza. Ele ora ao Senhor e diz: "Bem, Senhor, não era isto o que eu mais temia? E foi por isto que eu fugi para Társis. Eu adivinhava queTu És um Deus cheio de graça e de misericórdia, refratário à cólera, rico na bondade. Agora, Senhor, retoma minha vida, porque eu prefiro morrer a viver assim".” (LELOUP, p.70) 
A grande questão para mim então é: por que Jonas não aceita servir ao Deus da Misericórdia? Segundo o autor, porque ele tem medo de amar, medo de ser compassivo e medo de perder o chão das certezas. Certezas porque quem age como Jonas acredita que detém a "verdade". Não percebe que é a" sua verdade", já que é impossível para nós, seres humanos, ter o conhecimento total, a verdade absoluta. A vingança está fundamentada exatamente nisso: no fato de que existe uma verdade que é a do erro cometido e que a justiça deve ser feita. Não há espaço para a misericórdia, não há espaço para aceitar a vontade de Deus para nossas vidas.

E aqui não falo de isentar a pessoa que cometeu o erro. Os moradores de Nínive se penitenciaram para merecer o perdão de Deus. Eles assumiram a responsabilidade dos erros cometidos e buscaram uma mudança de comportamento. Dentro de uma sociedade, é preciso responsabilizar quem comete o erro. Mas a nossa atitude de aceitar, por exemplo, que as prisões sejam impiedosas, que haja tortura e desrespeito aos seres humanos presos (sim, são seres humanos como eu e você) é servir ao Deus da Justiça, mas está fundamentada na "nossa verdade", no nosso impulso de "anjo vingador". Está fundamentada na nossa disposição de, ou sermos indulgentes com nossos erros enquanto supervalorizamos os erros dos outros, ou pior: de sermos defensores da justiça tão ferrenhos que nos impomos uma culpa enorme por cada erro cometido e queremos que os outros sejam "castigados" na mesma medida em que nos autoflagelamos.
Gosto muito da ideia de servir ao Deus da Misericórdia. Exercitar minha disposição de ver os erros e as dificuldades das pessoas com compaixão (que é diferente de "pena"). Exercitar um olhar amoroso com a dor do outro, mesmo que a dor do outro pareça tola ou até mesmo “justa”. Confesso também que não é tarefa fácil. A empatia não é uma qualidade valorizada na nossa sociedade. Ver o mundo empaticamente é, muitas vezes, visto como fraqueza, fragilidade. E nosso impulsos de vingança precisam ser domados, transmutados em compaixão. Mas todas as vezes que consegui amar assim, minha alma ficou mais leve. Esse é o meu trabalho interno mais importante. Talvez esse seja o caminho para transformar a violência em paz... 


Assim, a felicidade está em realizarmos nossa missão que, ao final das contas, é amar. Afirma Leloup: “Se nós todos somos assim e se a vida neste espaço-tempo é tão breve, não estamos aqui para envenenarmos a vida uns dos outros. Estamos aqui para tornarmos a vida a mais agradável possível, uns aos outros. O grande medo de Jonas é ser misericordioso como Deus é misericordioso. O medo de Jonas é ser Deus. Um Deus que não é apenas justo à sua imagem, que pune os maus e exalta os santos, mas um Deus que faz brilhar o seu sol sobre o ouro e sobre o lixo e que faz descer a chuva sobre os bons e sobre os maus. Jonas não quer saber se o fundo de seu coração é doce e esta doçura não é uma fraqueza, mas uma grande força. Jonas é o medo de amar, o medo de ser Deus, porque Deus é Amor. (...) O medo de Jonas é o da perda do Ser amoroso, que convida o Eu a doar-se. Quer dizer, a morrer inteligentemente, ou melhor, a morrer amorosamente. Ao ir para Társis, tentando preservar o seu Eu, Jonas não poderia senão perder-se. Morreria velho, talvez, mas sem ter vivido. Indo para Nínive, ele descobre que pode se doar. Morrer também, sem dúvida, mas não sem ter amado. É isto que podemos nos desejar uns aos outros, em conclusão desta caminhada com Jonas - é não morrermos sem antes termos vivido, é não morrermos sem antes termos amado”. (LELOUP, p.77-78)

(Sugiro a leitura completa desse livro, que é muito rico. Há uma versão digitalizada razóavel AQUI.  Esse livro pode ser adquirido facilmente também. Veja AQUI.)


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

PASSOS NA AREIA II

Praia do Pepê por Stella Montalvão

Gaivotas voam sob o mar. Pombos caminham pela praia, catando detritos. Sei que faço parte disso. Penso nos animais, na sua existência tão diversa da nossa. Penso na nossa interdependência, nos nossos caminhos entrelaçados.

Lembro-me dos beagles. Lembro-me dos ratinhos de laboratório. 

Vidas de que dispomos em prol dos nossos interesses.

Temos esse direito?

Acredito que até a mais empedernida narcisista, às voltas com seus produtos de beleza, sabe, no fundo, como é perverso o uso de animais para testar cosméticos. Mesmo que nos recusemos a reconhecer como somos arrogantes, a percepção de que é preciso proibir esse tipo de prática fica cada vez mais forte.

No entanto, quando se fala de medicamentos, a dúvida se instala. Será?

Eu acredito que vivemos uma contradição profunda. Gastamos tempo e dinheiro para criarmos medicamentos para tratar doenças que nós mesmos criamos.

Fumamos, bebemos, ingerimos uma infinidade de produtos químicos cuja finalidade é despertar nossas sensações: aromatizantes, corantes e outros venenos. Usamos pesticidas, e, em escala global, somos responsáveis pelo envenenamento dos rios, pelo aquecimento global e outras mazelas.

Temos realmente o direito de impor às outras espécies as experiências e testes para criar remédios para problemas que atraímos com nosso estilo de vida?

Já não basta criarmos, em escala industrial, e frequentemente de forma cruel, animais para nos alimentar e alimentar uma indústria nada confiável em que hormônios, medicamentos, produtos químicos diversos são adicionados ao que ingerimos? Se ainda comemos carne, não deveríamos pelo menos manter uma postura respeitosa diante desse outro?

No plano simbólico, é também disso que nos fala a expulsão do Jardim do Éden: da nossa incapacidade para nos sentirmos em comunhão com o todo, com a natureza, com outros seres vivos.


Penso que, se como indivíduos, não somos capazes de vivermos em paz com os outros seres vivos, pelo menos deveríamos encarar a responsabilidade do que fazemos com eles, por conta do nosso egocentrismo.



PASSOS NA AREIA


Praia do Pepê por Stella Montalvão


Vejo crianças brincando na areia, fazendo castelos ou dando gritinhos de prazer ao entrar na água gelada. Vejo corpos jovens como já foi o meu, e corpos envelhecidos como será o meu um dia. Vejo pássaros e homens-pássaros com seus parapentes deslizando na água.

Caminho pela praia e o sol aquece meu rosto. O céu azul sem nuvens encontra-se com o mar também azul. Sinto meus pés na areia molhada e a brisa marinha refresca.

Enquanto sinto a presença da natureza, viajo dentro de mim, consciente do meu corpo como parte desse cenário.
Meu corpo. A materialização que me comporta em espírito fragmentado.

Meu corpo em excesso. Construído para ser presença, é hoje a representação da minha necessidade de me proteger do meu próprio medo.

Sigo colocando meu prazer naquilo que como. Desloco a alegria para fora da minha experiência interna. Comendo, exercito um prazer solitário, censurado e, por isso, tentador. Nesse processo, construo minha cápsula de proteção que me mantém distante dos outros.

Assim, sou também pássaro, que arrepia suas penas para iludir o inimigo, criando a ilusão de ser forte, aparentando ser maior do que sou diante da ameaça de me descobrir frágil.

É minha capacidade de amar que me assusta. Dar-se a conhecer é o perigo. E é nessa capa de excessos que me escondo, cada vez mais densa.

Mas quem sou eu verdadeiramente?

Caminhando na praia, sinto que sou leve.

Meu corpo desajustado serve ao meu pequeno ego assustado e perdido, que vive hoje com medo de sua própria sensibilidade, quando deveria brilhar, flutuar, deslizar pelos caminhos por onde passo.

Sei que posso me alimentar de luz, de sol, de paz.
Sei que posso me alimentar dessa sensação poderosa de ser quem eu sou.
Sei que posso amar.


Sei que posso brilhar!




domingo, 26 de maio de 2013

Corações Solitários: Quanta dor pode caber em um filme?

O filme norte-americano Corações Solitários (Miss Lonelyhearts) de 1958, dirigido por Vincent J. Donehue, é baseado na peça de teatro de Howard Teichmann, que por sua vez é livremente inspirada no conto Miss Lonelyhearts de Nathaniel West, publicado em 1933.


Meu primeiro contato com o conto Miss Lonelyhearts foi por meio da leitura de uma citação de um trecho bastante pungente: uma carta à Senhorita Corações Solitários em que uma garota de 16 anos pede conselhos de como lidar com o medo que seu rosto mutilado desperta em todos. Li essa citação no prefácio de um livro muito interessante chamado Estigma, do sociólogo canadense Erving Gofmann e foi essa leitura que me levou ao conto.

O conto é bastante interessante, pois tem uma estrutura narrativa bastante diferente e seu tom derrotista e de humor negro é bastante representativo do período da Grande Depressão. O enredo trata da trajetória pessoal e espiritual de um jornalista em crise que, em sua coluna de jornal, responde cartas de pessoas sofredoras endereçadas à Senhorita Corações Solitários em busca de conselhos, enquanto é atormentado pelo chefe e se afunda em generosos copos de bebida.

Já o filme retém esse mesmo enredo, mas o que é cinismo no conto é dúvida no filme. Somos levados a conhecer melhor a trajetória do jornalista, Adam White, interpretado por Montgomery Clift, sua história familiar, sua culpa e seus desejos de redenção, seu sofrimento e o amor por sua namorada. E ao conhecê-lo melhor, acabamos por nos solidarizarmos com ele.


Essa solidariedade só é possível por conta da interpretação delicada e competente que faz Montgomery Clift desse homem que, ao contrário dos demais colegas de redação, não consegue debochar das cartas que lê, ficando cada vez mais mobilizado pelo sofrimento alheio, a ponto de não conseguir mais trabalhar, atormentado por seus próprios demônios e pelo assédio moral imposto a ele por seu chefe. Seu olhar expressivo, seus gestos de desalento, sua quase ingenuidade diante do Mal são suas armas de sedução, fazendo com que soframos com ele e com todos aqueles que ele, de certa forma, representa.


Em oposição a esse jornalista está Sr. Shrike, editor-chefe do jornal, que o admite em seu jornal em busca de divertimento sádico: sua expectativa é provar mais uma vez que um homem de princípios só os tem até se decepcionar diante da vileza inexorável daqueles com quem esse homem se solidariza. A escolha do nome Shrike pelo autor do conto, e mantido no filme, é bastante significativo nesse sentido: o picanço (shrike em inglês) é uma ave de hábitos predatórios, alimenta-se de pequenos animais e tem como hábito pendurar partes de suas presas em galhos, usados como “despensa”. Robert Ryan, de Os Doze Condenados (1967) e Meu Ódio Será Sua Herança (1969), faz esse papel de forma exemplar: seu olhar cínico de abutre a espreitar sua presa, seu prazer em ver sua presa se debatendo diante das suas dúvidas existenciais e do seu desencanto diante dos outros, despertam um sentimento de repulsa profundo.

Já as mulheres desse filme, Justy, Florence Shrike e Fay Doyle, são quase patéticas: sem perspectivas, existem e agem em função de seus homens.


A namorada Justy, interpretada pela iniciante Dolores Hart, é o exemplo da menina suburbana que, com a morte da mãe, assume toda a responsabilidade de cuidar da casa e atender às necessidades do pai e dos irmãos, sem receber quase nenhum reconhecimento por isso. Além disso, trabalha fora, e é tocante a cena em que ela se vangloria de ter sido promovida de arquivista à secretária depois de dois anos de trabalho duro. Ela se ressente do fato de que seu namorado, apesar de amá-la, mantém uma certa reserva em relação ao seu próprio passado. É esse passado que, ao ser revelado, estabelece um dilema a ser enfrentado por ela. Ao final do filme, sua hesitação é vista como uma falta de amor pela qual ela precisará pedir perdão.


Florence Shrike, representada por Myrna Loy, a bela atriz mais conhecida pelos papéis de femme-fatale no cinema mudo e depois por sua participação em A Ceia dos Acusados (1934) e Ziegfeld, o Criador de Estrelas (1936), é a esposa do editor-chefe. Ela sofre por ter cometido adultério dez anos antes e nunca ter sido perdoada pelo marido ciumento, apesar de ele ter tido diversas amantes na mesma época. Esse adultério é usado frequentemente para humilhá-la, inclusive diante de outras pessoas. Sua aproximação desinteressada de Adam White é o motivo principal pelo qual seu marido o emprega no seu jornal e passa a “torturá-lo” no sentido de destruir sua fé na humanidade.


Fay Doyle é uma das pessoas que escreve para a Senhorita Corações Solitários. Com a intenção de destruir a fé de Adam White e humilhá-lo, Shrike o incita a conhecer pessoalmente as pessoas que lhe escrevem. Assim, Adam recebe, em sua casa, Fay Doyle, uma dona de casa que vive com o marido por mais de sete anos sem relações sexuais por conta de um acidente sofrido por ele. Perturbado pela história de Fay, ele se deixa seduzir por ela, para depois recusar a proposta dela de manterem um relacionamento adúltero. Essa recusa a irrita e, sentindo desprezada, ela tomará uma decisão de contornos trágicos. Essa mulher emocionalmente instável é interpretada por Maureen Stapleton, atriz que recebeu sua primeira indicação ao Oscar de Atriz Codjuvante por esse trabalho. No decorrer de sua carreira, ela recebeu essa mesma indicação por sua atuação em três outros filmes, tendo finalmente sido a ganhadora por sua atuação em Reds (1981).

É possível escolher entre o conto e o livro? Eu acho que não. Reproduzir o conto em seus aspectos inovadores seria empobrecer a experiência reflexiva proposta pelo texto. O filme utiliza-se do enredo, mas traz outra visão de mundo... Do conto amargo para o filme redentor, há uma grande distância. Ao leitor do conto, um aviso: o desfecho do filme pode decepcionar, caso você faça questão do final proposto no conto. Eu aceitei bem o final construído no filme. Um pouco de ternura, na minha opinião, não faz mal a ninguém... 

Esse filme não é, com certeza, um dos mais conhecidos no Brasil ou mesmo nos EUA. Seu diretor teve carreira breve no cinema, tendo se dedicado essencialmente aos filmes para televisão. Esse filme não foi lançado no Brasil nem mesmo em VHS. Nos EUA, também é um filme difícil de se encontrar. Ainda bem que há o YOUTUBE! É possível ver o filme completo em MISS LONELYHEARTS (1958), sem legendas.

Já o conto foi lançado no Brasil em 1985, pela Editora Brasiliense, mas atualmente está fora de catálogo. Se você quiser conhecê-lo, é possível ler sua versão original em inglês: Miss Lonelyhearts de Nathaniel West.

Download: Para o release “Lonelyhearts (1958) Montgomery Clift Eng” é possível fazer o download pelo Torrent e há legenda em português.